terça-feira, 18 de abril de 2017

TERÇO PELA VIDA



TERÇO DA FÉ (22 de abril – sábado)

1.º
Neste terço em que desejamos meditar sobre a fé, o nosso pensamento vai para Nossa Senhora da Fé. De facto, no dia da Visitação, a sua parente Isabel proclamou: Feliz és tu, porque acreditaste em tudo o que te foi dito da parte do Senhor. A Virgem é feliz, porque acreditou, porque teve fé, porque foi a «mulher da fé», plenamente alicerçada em Deus e na sua Palavra. Nossa Senhora, com fé profunda, aderiu ao mistério do plano salvador, não duvidou, não colocou condições, não se revoltou perante as dificuldades. E quando não entendia os acontecimentos, rezava para encontrar na oração razões para acreditar sem ver, sem entender. Peçamos para todos esta graça.

2.º
No evangelho, parece não haver milagre sem primeiro haver um ato de fé, ou do doente, ou da família, ou dos próprios apóstolos ou discípulos. Só com uma fé amadurecida e adulta se alcançam milagres. E bastava ter fé como o grão de mostarda para dizer a um morto para mudar de sítio, e suceder como dizíamos. Peçamos neste mistério uma fé viva, ardente, apaixonada; uma fé adulta que não se deixa levar por superstições; uma fé esclarecida e culta, para sabermos transmitir aos outros as verdades em que acreditamos.

3.º
Neste mistério, vamos rezar por aqueles que não têm fé: os ateus, os pagãos, os agnósticos, os indiferentes... Pode suceder que não acreditem e não tenham culpa, porque nunca lhes chegou a Palavra do Senhor, os ensinamentos da evangelização, mas alguns talvez não acreditem, porque se fecham à luz da graça da fé, da adesão interior à Palavra e aos mistérios. Peçamos fé para todos os homens. Digamos como no Evangelho: Senhor, aumentai a nossa fé. Supliquemos a Nossa Senhora pelos seus filhos que não acreditam, para que brilhe para eles, no seu interior, a luz da fé.

4.º
Parece que não podemos falar da fé sem falar do Batismo e do símbolo da vela acesa que nesse momento nos foi colocada na mão. Os pais e os padrinhos seguraram na vela acesa, símbolo da fé, da luz que é Cristo. O Senhor disse de si próprio: Eu sou a luz do mundo. Ter fé, viver da fé é ser luz que ilumina a vida e os caminhos dos outros. Ter fé é continuar com a vela do nosso Batismo acesa, a brilhar. Peçamos pelos batizados que não têm fé ou a têm arrefecida, como a luz da vela frouxa e a apagar-se.

5.º
Que fazemos nós para crescer na fé? Rezamos, lemos, refletimos, estudamos, usamos os meios que a paróquia e a diocese põem ao nosso alcance? Pedimos com insistência para que cresça a nossa fé? E que faz cada um de nós para ajudar os outros a crescer na fé, a ter uma fé mais culta, mais amadurecida? Colaboramos com entusiasmo nos organismos paroquiais que são instrumentos para que outros cresçam na fé? Se a fé é um dom a pedir, é também fruto da oração e do nosso esforço. Que Nossa Senhora nos alcance o dom de crescer na fé e de ajudar os outros a crescerem também.


TERÇO DA ESPERANÇA (23 de abril – domingo)

1.º
A Igreja peregrina vive em esperança, em expectativa. Cada dia na Eucaristia dizemos: Aguardamos em jubilosa esperança a última vinda do Cristo Salvador. E a Bíblia termina com a bela expressão: Ámen. Vem, Senhor Jesus. É o clamor da Igreja, Esposa de Cristo, que vai rezando, pedindo a vindo do Rei e Senhor, do Esposo. Por outro lado, porque acredita nessa vinda, vigia e aguarda-a, preparando-se com uma santidade cada vez maior, com uma vida cada vez mais refulgente, com um comportamento cada vez mais irrepreensível, digno do Esposo, do Senhor que há de vir julgar os vivos e os mortos. O cristão, inserido na Igreja, deve viver esta esperança, deve vigiar e orar, deve estar atento, pois o Senhor virá. Sem medo, sem temor, com o coração alegre e a alma em júbilo, pois o encontro com o Senhor é festa, é comunhão de amizade, é felicidade plena. Peçamos a Nossa Senhora que nos alcance esta atitude de esperança.

2.º
Quem espera, vigia, está atento, preocupa-se com a vinda do Senhor. Daí que a esperança é virtude ativa, duma dinâmica expectativa. Quem espera, faz como as virgens fiéis, as virgens sensatas da parábola evangélica, não adormece, tem sempre azeite e a candeia acesa. Quem espera não dorme, mas reza e aguarda com cuidadoso amor, pois o Senhor virá e é preciso aguardá-l’O bem preparado e com júbilo. O que espera sabe que o Senhor vem para libertar, para renovar todas as coisas, para fazer novas todas as realidades. Por isso, a esperança é virtude confiante e alegre. O que espera vive na santa alegria do encontro com o Senhor. Aguarda-O em jubilosa esperança.

3.º
Quem espera não pode deixar de rezar. A esperança conduz à oração perseverante, insistente, confiante. E a oração vai alimentando a esperança, vai dinamizando no coração do crente a expectativa, o abandono, a confiança no Senhor. O que espera vai rezando e o que reza aumenta em esperança. Rezemos, pois, com Nossa Senhora da Esperança, rezemos, pedindo que aumente em nós a esperança, rezemos pedindo para sermos alegres na esperança. Não deixemos que algo ensombre a luz da nossa esperança e saibamos, como o Pai Abraão, acreditar contra toda a esperança, sem desânimo, sem desfalecer, sem deixar arrefecer o fulgor viçoso da esperança cristã.

4.º
A esperança levar-nos-á a tomar cuidado com os talentos que o Senhor nos deu e a colocá-los em prática, a fazê-los render. Quem sabe que o Senhor virá pedir contas, não fica indolente, preguiçoso, instalado, comodista, mas lança-se a fazer render os talentos, os dons, as graças do Senhor, para que frutifiquem em abundância. A esperança torna-se, pois, dinamismo de fortes e não é «virtude de fracos» que aguardam de braços cruzados os dons caídos do Céu. O que espera é forte, é audacioso, é tenaz, é valente, e coloca-se a trabalhar, a render para ter mais quando o Senhor vier. Peçamos esta alegre tenacidade, supliquemos esta fortaleza própria dos que vivem em esperança.

5.º
O que vive em esperança é pessoa otimista, vê o positivo da vida, encara-a com ânimo. A esperança é irmã gémea do são e fecundo otimismo que não nos deixa nunca desalentados perante o fracasso, o pecado, a fragilidade, aquilo que parece menos bom. Vivendo da esperança, o homem e a mulher que vivem o evangelho, são sempre sonhadores, aguardando melhores dias e situações melhores. O que vive da esperança sabe que Deus está no meio da história, da vida, dos acontecimentos, como energia vital que não deixa nunca de agir. Por isso sabe que Cristo «já venceu o mundo» e ouve a Palavra do Senhor: «confiai». A esperança faz viver a salutar alegria cristã.


TERÇO DA CARIDADE (24 de abril – segunda-feira)

1.º
Deus é amor. A Trindade é comunhão plena de amor. Jesus, o Verbo do Pai, é o amor encarnado. O Espírito Santo é o amor eterno, o «beijo eterno do mundo» entre o Pai e o Filho. Daqui que a vida cristã só tem sentido no amor, deve ser uma vida, uma existência na caridade. O Espírito Santo que nos habita quer ser no nosso interior fonte de amor, energia vital que nos ensina a amar a Deus e ao próximo. Sem amor não há vida cristã, santidade, graça; sem amor não vivemos, mas vegetamos. Só o amor liberta, só ele nos faz viver como filhos de Deus. Peçamos, neste mistério, a graça de viver o amor, de sermos amor vivo e atuante para com Deus e com o próximo.

2.º
Neste mistério, a nossa reflexão vai incidir no mandamento novo do Senhor, ou seja, no amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. É um preceito, uma ordem, um mandamento. Jesus quer, manda que nos amemos. O pior pecado é não amar. E quem não ama, como ensina S. João, não conhece a Deus, porque Deus é amor. Quanto mais cumprirmos o mandamento do amor, tanto mais conhecemos a Deus e tanto mais Deus se revela a nós. Daí a necessidade de amar sempre, amar a todos, amar sem medida. É a graça que vamos pedir.

3.º
Neste mistério, para que a realidade do amor seja presença ativa em nós, recordemos o ensinamento da Escritura: cada pessoa, cada homem e cada mulher são um Cristo vivo. O bem e o mal que fazemos a alguém é a Deus que estamos a fazer. Precisamos descobrir o rosto, a pessoa de Cristo, em cada irmão, em cada irmã. Rico ou pobre, sábio ou ignorante, jovem ou idoso, santo ou pecador, cada pessoa é Jesus. Para amar Jesus a sério, temos de amar as pessoas que vivem connosco, que trabalham connosco, que connosco se cruzam nos caminhos da vida. Sem esta visão, sem este amor, não há vida cristã.

4.º
Outro ensinamento relativo ao tema que estamos a meditar é este: a santidade mede-se pelo amor, ou seja, seremos tanto mais santos quanto mais amarmos. Se Deus é Amor, quanto mais a nossa vida interior impregnada de amor, tanto mais santos, tanto mais divinos seremos. E amar é algo concreto, ou seja, são obras, são ações, são movimento ativo em relação aos outros: matar a fome e a sede, vestir o nu, visitar o doente e o preso, escutar quem precisa, sorrir, semear alegria e esperança, cuidar dos outros, etc. Precisamos de inventar modos concretos de amar, de servir, de ser amor ao longo do dia. Peçamos esta graça neste mistério.

5.º
No quinto mistério, para aprofundar mais o nosso tema, vamos meditar na caridade de Nossa Senhora. Ser cheia de graça significa ser cheia de amor. Maria viveu em grau eminente o seu amor com Deus e com o próximo. A caridade da visitação a Isabel, a atenção dedicada nas bodas de Caná, o serviço à comunidade primitiva são aspetos da Senhora da Caridade. E na vida quotidiana de Nazaré só podemos imaginá-la a servir, a ajudar, a sorrir, a dar-se sempre e a todos. Que a Senhora da Caridade rogue por nós, que Ela nos ajuda a amar mais e melhor.


TERÇO DA FAMÍLIA (25 de abril – terça-feira)

1.º
Deus é Família, a Santíssima Trindade é Família divina, com três Pessoas que se amam dum modo infinito e indizível. O Pai ama o Filho, dá-Se ao Filho e acolhe-O no seu ser de Pai. O Filho faz o mesmo, com a mesma intensidade divina, ou seja, ama o Pai, dá-Se ao Pai e acolhe-O no seu ser de Filho. Este fluxo e refluxo de amor, este «beijo eterno de amor», este divino abraço de amor, é o Espírito Santo. Se Deus é Família, é comunhão plena das três pessoas, é unidade total, temos todos de aprender com a Santíssima Trindade a ser família onde reine o amor, a comunhão, a concórdia, a unidade, a paz o diálogo familiar. Peçamos a Deus esta graça.

2.º
Neste segundo mistério, meditamos na Família Sagrada de Nazaré, Jesus, Maria e José que, movidos pelo amor que vem do Céu, vivem a unidade da família humana. Com dificuldades, provações, ocasiões difíceis, como a perda de Jesus no Templo, a Família de Nazaré soube superar obstáculos, vencer dificuldades, porque alicerçada em Deus, porque cada um dos membros da Sagrada Família se esforçava por si e sempre cumpriu a vontade do Pai. Por isso, não havia críticas, divisões, discórdias, ofensas. Peçamos à família de Nazaré por todas as famílias humanas.

3.º
Se a família nasce do sacramento do matrimónio, da entrega mútua dos esposos, por um amor de comunhão que é prolongado nos filhos, então, a família é cristã. E uma família cristã é uma Igreja doméstica e deve viver dentro do seu lar, na comunhão de todos os membros, a grandeza de ser Igreja. Para viver assim, as famílias precisam de ser preparadas, o matrimónio necessita de ser bem preparado. E, depois, precisam de ser ajudadas, por todos os meios, a realizar o sonho de Deus ao constituir famílias cristãs, e o sonho dos esposos quando se deram um ao outro diante do altar do Senhor.

4.º
A família, no seu conjunto, como «Igreja doméstica», precisa de realizar uma dupla missão: evangelizar dentro da própria família e lançar-se para fora, anunciando a Palavra que liberta. Famílias cristãs evangelizadoras de outras famílias. Devem santificar-se através da oração e dos sacramentos e ser ajuda eficaz na santificação das outras famílias. Devem pastorear, cuidar com amor de todos os membros, sobretudo os mais doentes, idosos, cansados, etc. E devem procurar pastorear, ou seja, exercer a caridade fora da família, com outras famílias mais necessitadas, com os mais pobres ou marginalizados. Peçamos ao Senhor que as famílias cristãs saibam ser verdadeiras «Igrejas domésticas».

5.º
Neste mistério, vamos rezar pelas famílias que mais necessitam. Rezemos pelas famílias onde não há amor, paz, concórdia, onde reina a desunião, a ofensa, a zanga. Rezemos pelas famílias onde não há pão, cultura, emprego, bens materiais suficientes, rezemos por aquelas que, apesar de terem dinheiro, não o sabem gerir ou governar, gerando mal-estar e desordem. Rezemos pelas famílias onde as infidelidades conjugais causam dor e humilhação, rezemos por aquelas onde os filhos são vítimas da falta de amor dos pais, rezemos por aquelas onde o divórcio criou rutura e dor. Rezemos ainda pelas famílias onde os idosos, deficientes, pessoas com doenças degenerativas ou mortais e outros dependentes e mais necessitados não são amados e acarinhados. Que Nossa Senhora a todos abençoe.


TERÇO DO SOFRIMENTO (26 de abril – quarta-feira)

1.º
Deus criou-nos para a felicidade e para a alegria e quer que as gozemos já, neste mundo, nesta vida. Mas o pecado e o mal nem sempre nos deixam ser felizes. O sofrimento e a dor são nossos companheiros de viagem no peregrinar da nossa vida. O homem, a mulher, por mais que façam, não se libertam plenamente do sofrimento, quer este seja físico ou moral. E perante o sofrimento, podemos ficar revoltados, ainda mais angustiados, gritando a injustiça. Mas podemos, com a graça de Deus, aceitar o sofrimento com resignação e, melhor ainda, com amor. Peçamos a Nossa Senhora que nos ajude a saber sofrer, a aceitar com amor o sofrimento do dia a dia.

2.º
Neste mistério, vamos pensar nos sofrimentos de Cristo e no modo heroico como Ele soube sofrer, soube aceitar o sofrimento. No auge da dor, no mais agudo sofrimento, no alto da Cruz, Ele soube aceitar com amor a vontade do Pai. Aquele crime, que nascia da maldade dos homens e que O levou à paixão e à morte, foi aceite e amado sem revolta, sem amargura. É diante do Crucificado que nós aprendemos a sofrer e a amar a nossa cruz. Foi Ele, feito verme da terra, no mais angustioso sofrimento que nos remiu e salvou. Aprendamos com Ele.

3.º
Neste mistério, vamos colocar diante de Deus, pelo Coração Doloroso de Nossa Senhora, todo o sofrimento do mundo. Rezemos por todos os que sofrem dum modo mais intenso e cruel; por todos os que sofrem sem fé e sem esperança; por todos os que se revoltam e não aceitam os seus sofrimentos; por todos os que não podem, não sabem ou não querem oferecer a Deus os seus sofrimentos para colaborar na redenção. Rezemos por todos e coloquemo-los junto do Coração de Deus, pedindo que a todos ajude, conforte, alivie.

4.º
Vem a propósito, neste mistério, recordar uma figura bíblica importante: Simão de Cirene. Foi ele que ajudou Jesus a levar a cruz, que O ajudou no sofrimento. Ser cireneu é uma extraordinária vocação; saber ajudar os outros a sofrer, a levar a cruz, a alivar dores e cansaços, é um modo maravilhoso de exercer o amor, de ser presença amiga junto dos que sofrem. Pensemos o que poderemos fazer pelos que sofrem, como os podemos ajudar, como inventar modos concretos de sermos bons e eficazes «cireneus». Pensemos também nas vezes que fizemos sofrer os outros, que aumentámos o peso da sua cruz.

5.º
Num terço sobre o sofrimento, não podemos deixar de meditar os sofrimentos, as dores da Senhora. Toda a sua vida foi marcada por momentos de dor aguda que Ela soube aceitar e amar com heroicidade. A devoção às sete dores de Nossa Senhora é o modo de tornarmos presente a vida, marcada pela dor, da Virgem Maria. Mas talvez o ponto mais alto tenha sido a sua permanência junto à cruz de Jesus, na tarde de sexta-feira santa. Meditemos a Mãe das Dores, a Mãe do Crucificado, a Mãe desolada, a Senhora com a alma trespassada pela espada de dor.


TERÇO DOS IDOSOS (27 de abril – quinta-feira)

1.º
Os idosos são os homens e mulheres da maturidade, da experiência da vida, repletos de sabedoria e, tantas vezes, de sofrimento, cansaço, dores, tudo atrás de si, uma vida de dor e cheia de muito trabalho. Olhar um idoso devia ser sempre para nós, um momento de reflexão, de oração, quase diria de adoração. Um idoso, mesmo que agora já não tenha as suas faculdades em bom estado de saúde, é uma espécie de catedral, de obra-prima que merece atenção, carinho, amor, delicadeza, estima e muito respeito. Por detrás das rugas, do corpo já arqueado, da memória já falha, quanto está de experiência, de vida vivida. Com os idosos sucede o que diz o poeta: «saber de experiência feito». É, de verdade, encantadora a sabedoria da vida, da experiência dos anos, dos nossos idosos. Rezemos por eles. Peçamos ao Senhor, graça e consolação para os idosos.

2.º
Os idosos não são alguém que já não presta, os avós ou os tios idosos não são lixo para deitar fora, para arrumar na prateleira. São bem úteis, bem necessários para continuar a tradição, para cuidar dos netos, para transmitir a fé, que às vezes os pais não têm, para dar tempo e carinho às crianças, já que a azáfama da vida faz com que os pais não possam dispensá-los. São úteis, muito necessários, contando o passado, recordando histórias, fazendo o elo da família. Quantas vezes é uma família toda que se reúne à volta ou na casa da avó ou do avô já idoso. Faltando eles, parece que tudo se desagrega. Peçamos pela unidade das famílias com a presença e o amor aos idosos e com eles.

3.º
Neste terceiro mistério, peçamos dum modo particular pelos idosos que vivem sós, tantas vezes sem conforto e sem carinho, sem a presença e amizade da família. Peçamos pelos que sofrem o horror da solidão, da tristeza e a angústia de se sentirem sós, pesados, a mais, quase desprezados. Peçamos pelos idosos que vivem ao desamparo, sem terem quem lhes dê de comer, quem cuide a sua higiene, quem lhes dê um pouco de carinho, de atenção. Os idosos gostam muito de falar e precisam de quem os oiça, ainda que eles repitam o mesmo. Ouvi-los, sorrir-lhes já é dar-lhes importância, e custa tão pouco fazê-lo. Vamos empenhar-nos em ouvir e tratar melhor os nossos idosos. Que Nossa Senhora nos ajude.

4.º
Há situações de idosos verdadeiramente clamorosas. Doentes, quase sem se mexerem, não têm quem os leve ao médico, quem lhes chegue um pedaço de pão, quem os agasalhe de inverno, quem lhes cuide da roupa e da casa. Precisamos de aprender a ter atenção aos nossos idosos, eles têm direito ao nosso amor e dedicação. Se os familiares não o fazem, façamo-lo nós, congreguemos esforços e vontades, amor e meios económicos, para ajudar a viver com conforto e amor o resto dos dias da vida. Já bastou o passado, o que sofreram, as privações, as dificuldades; agora não lhe faltemos com o justo e o necessário. Ajudar a passar bem os últimos tempos de vida, ajudar a morrer com dignidade, é uma grande obra de misericórdia. Não deixemos de a fazer. Somente 30% da população portuguesa tem acesso a cuidados paliativos. Que os nossos governantes se empenhem verdadeiramente no acesso a estes cuidados, lutando contra todas as formas artificiais que põem fim à vida humana.

5.º
Nos conflitos de gerações, penso que são os mais novos, filhos ou netos, a entender que os idosos já não conseguem mudar ou adaptar-se, não conseguem abrir-se a grandes novidades. Têm os seus hábitos, os seus gostos, a sua mentalidade. Assim nasceram e viveram, sempre assim fizeram, porquê agora obriga-los a ser de outro modo? Aceitemo-los, compreendamos as suas teimosias, os seus costumes, as suas mentalidades. Saibamos amá-los como são. Demos-lhe carinho e veremos que lhe conquistamos o coração. Demos-lhe amor e eles se abrirão e se sentirão mais felizes. Façamos felizes os nossos idosos: é a única maneira de prepararmos com dignidade a sua morte e, também, a nossa própria velhice.

TERÇO DA MISERICÓRDIA (28 de abril – sexta-feira)

1.º
Neste terço da misericórdia, comecemos por refletir em Nossa Senhora como Mãe da misericórdia. De facto, a Senhora, no Magnificat, já tinha cantado a misericórdia de Deus concedida a Abraão e à sua descendência, e todo o cântico é expressão de júbilo para com o Deus da misericórdia que olhou para a humildade da sua serva. É, contudo, junto à Cruz redentora onde morre o Justo e o Santo para remir os homens e mulheres pecadores, que Maria se torna a Mãe da Misericórdia. No seu coração trespassado pela espada de dor, a Senhora clama com o Filho a misericórdia para todos os homens. É junto à Cruz onde Jesus Vítima se oferece que Maria, repleta de misericórdia, se oferece também, ao mesmo tempo que oferece Jesus.

2.º
A palavra misericórdia significa o coração debruçado sobre a miséria. Debruçado não para condenar, mas para remir e salvar, para, com ternura e carinho, libertar o homem pecador. É assim o nosso Deus, um Pai de misericórdia que não só perdoa, mas se alegra em perdoar, faz festa em acolher os homens e mulheres pecadores. Precisamos de perceber que Deus vive desejoso de nos perdoar, que quer exercer a sua misericórdia. Saibamos ir ao seu encontro e Ele nos acolherá com os braços abertos, com o Coração rasgado. Saibamos reconhecer-nos pecadores e, com humildade, ir ao encontro do Pai da misericórdia.

3.º
Neste mistério, vamos colocar diante do Deus da misericórdia, por intermédio de Nossa Senhora, a Mãe de Misericórdia, toda a humanidade pecadora e frágil. Entreguemos os criminosos, os adúlteros, os homicidas, os mentirosos, os injustos, os blasfemos… entreguemos toda a espécie de pecadores, colocando-os na misericórdia do Pai. E não nos esqueçamos de nos entregar a nós próprios, com a nossa fragilidade, fraqueza e pecado. Vamos suplicando: «Senhor, tem piedade de mim que sou pecador». Deixemo-nos abraçar pela misericórdia divina.

4.º
Precisamos de aprender a ser apóstolos da misericórdia, apóstolos do amor misericordioso de Deus. Para muitos homens e mulheres nossos contemporâneos, Deus às vezes aparece mais como carrasco, como vingativo, como justiceiro. Precisamos de gritar aos homens que Deus é Amor, que Deus é Misericórdia. Precisamos de ensinar as pessoas a não ter medo de Deus, precisamos de as conduzir ao Coração onde só há misericórdia. Precisamos de entender e de ajudar os outros a perceber que Deus, não só perdoa, mas alegra-se em perdoar, que faz festa quando vamos ao seu encontro. Se assim é, sejamos apóstolos da misericórdia, para que o amor divino abrase os corações de todos os homens.

5.º
Rezar a misericórdia de Deus ficaria por completar se não aprendêssemos com Ele a ser misericordiosos com os outros. A Escritura proclama: bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia. Só quem tem um coração bom, compadecido e misericordioso, capaz de perdoar, de não julgar, de não condenar, é que está preparado para ser perdoado por Deus. Quantas vezes somos duros e injustos a julgar os outros, a falar deles, a relacionarmo-nos com eles! Sejamos misericordiosos, saibamos compreender, desculpar, perdoar e Deus nos encherá de seus dons, nos abrirá o seu coração, nos concederá a sua misericórdia.

TERÇO DO SERVIÇO (29 de abril – sábado)

1.º
O nosso pensamento neste primeiro mistério tem de ir para Jesus que é modelo de serviço e que afirmou: Eu vim para servir e não para ser servido. Homem para os outros, Homem de total dedicação, Homem em contínua oblação de amor, Jesus foi o Bom Pastor, o Bom Samaritano, o Homem do serviço total e plenamente abnegado. Apesar de Rei e Senhor, Jesus serve os homens até Se colocar de joelhos diante deles e lhes lavar os pés. Serviço humilde e sem reservas, sem aceção de pessoas, sem egoísmo, sem egocentrismo. Jesus, o Servo de Iavé, é o Servo humilde dos homens seus irmãos. Peçamos a graças de saber servir. Peçamos-Lhe que nos ensine a ser servos dos outros.

2.º
Nossa Senhora, que disse de si própria que era a serva, a escrava, e que proclama no cântico do Magnificat que «Deus olhou para a humildade da sua serva», é também modelo de serviço. De facto, a Virgem Maria apresenta-se-nos a servir Isabel, sua parente, a servir os noivos em Caná, pedindo o milagre, a servir a comunidade primitiva, rezando com os discípulos do Senhor. Ela é a senhora do serviço, porque pobre e humilde. De verdade, só os que têm coração humilde são capazes de servir os outros com total dedicação, com generosidade e, porventura, sacrifício. Peçamos à Senhora que nos ensine a arte de bem servir.

3.º
Examinemos neste mistério como vai a nossa capacidade de servir em casa, no emprego, na paróquia, no movimento apostólico, na sociedade. Como vimos, o serviço exige humildade e pobreza interior, e talvez por isso há tão pouco quem sirva com dedicação. Servir quando recebemos elogios ou recompensas de outra ordem parece custar menos, mas servir no escondimento, quando ninguém repara ou elogia, custa muito. Mas é este serviço abnegado que é o lema de todo o cristão. Como servimos os outros? Com que humildade? Buscamos recompensas?

4.º
Quanto bem se deixa de fazer, porque não há quem sirva, quem se dê, quem seja generoso no serviço, na dedicação, no trabalho em favor dos outros? O egoísmo, centrando-nos em nós próprios, é inimigo do serviço desinteressado. O comodismo, a vaidade, a ostentação, a soberba também nos impedem de servir. Não querer nem procurar recompensas, servir no silêncio para não atrair as atenções, dar-se sem medida, colocando a sua alegria em Deus, não é tarefa fácil. Mas são necessários heroicos e dedicados serviçais que façam com muito amor muita obra de caridade e apostólica. Peçamos ao Senhor um coração bom, capaz de servir os outros.

5.º
Se é verdade que muitas vezes ficamos instalados e comodistas à espera de que sejam os outros a servir e a servir-nos, também é verdade que nos é necessário humildade para, sem vaidade e com simplicidade, deixar que os outros nos sirvam, nos «lavem os pés». Por vezes, o nosso orgulho parece não querer que nos sirvam, pois não fazemos o mesmo, ou deixar-se servir causa-nos humilhação. Se servir é reinar, deixar que os outros nos sirvam também é reinar sobre o nosso amor-próprio, o nosso orgulho. Peçamos um coração humilde para servir e deixar que os outros nos sirvam.

TERÇO DA ALEGRIA (30 de abril – domingo)

1.º
O nosso Deus é o Deus da alegria, da festa, dos aleluias eternos, das divinas sinfonias. O nosso Deus vive no seio da Trindade em contínuo gozo e quer partilhar connosco dessa felicidade infinita. O nosso Deus é um Deus de festa, e quando vamos junto d’Ele, faz festa, alegra-Se, há música e danças. Deus é alegria. Deus é felicidade. Deus é gozo infinito de amor. E este Deus quer-nos felizes, alegres, quer fazer-nos partilhar da sua vida, da sua felicidade, da sua infinita alegria. Fomos criados para ser felizes, para viver na alegria de Deus, para partilhar a vida do Deus da Alegria. Peçamos a graça de perceber, por dentro, o mistério da alegria de Deus e a graça de o partilhar e viver na nossa existência.

2.º
A fonte cristã da nossa alegria é a ressurreição de Jesus. Porque Ele está vivo, glorioso, ressuscitado, porque é o vencedor da morte e do pecado, precisamos de partilhar a sua alegria pascal. O cristão nasceu na manhã de Páscoa e precisa de viver esse gozo interior do Senhor ressuscitado. A tristeza não vem de Deus, é fruto do pecado, sobretudo do orgulho, do ciúme, da inveja, do egoísmo que nos tiram a alegria de Deus e a comunhão com o Deus da Alegria. Os discípulos do Ressuscitado devem ser homens e mulheres alegres, pois acreditam que Ele está aqui e está vivo.

3.º
Dizemos na ladainha a Nossa Senhora que ela é a causa da nossa alegria. Foi ela que nos deu Jesus, ela é Mãe do Salvador, Mãe da divina Graça. É causa da nossa alegria, porque Imaculada e vencedora do dragão; porque cheia de graça, aceitou o mistério da encarnação e deu-nos Jesus Cristo. É causa da nossa alegria, porque é Mãe e sabemos que podemos confiar nela e no seu amor maternal. É causa da nossa alegria, porque bela, santa, imaculada, porque elevada ao Céu, porque Rainha dos Anjos e dos Homens. Peçamos a Nossa Senhora que nos ensine a viver a alegria que Ela viveu, porque sem pecado e em comunhão com Deus.

4.º
Neste mistério, vamos rezar por todas as pessoas que não têm alegria, não vivem felizes. Há tantos amargurados, angustiados, desesperados… há tantos sem gosto pela vida, pela família, pelo que fazem… há tantos a sofrer tormentos interiores de escrúpulos, de depressões nervosas, de cansaços em desespero… há tantos que parecem ter nascido para sofrer, ou pelo menos têm épocas de vida de muita falta de felicidade, de paz, de alegria. Rezemos por todos. Entreguemos todos ao Coração de Nossa Senhora, ela que prometeu em Fátima que o seu Coração seria o nosso refúgio. É Mãe, tem coração de Mãe. Peçamos-lhe pelos seus filhos mergulhados na tristeza e na falta de felicidade.

5.º
Não podemos terminar este terço sobre a alegria, sem nos fazermos a nós próprios duas perguntas. Primeiro, se vivemos alegres em Deus, alegres por causa de Deus, com verdadeira alegria, ou se nos contentamos com fáceis contentamentos, com alegrias mundanas e passageiras. A segunda questão tem forçosamente de ser esta: fazemos os outros felizes? Damos alegria a quem vive connosco? Somos causa de tristeza para alguém? Alguma pessoa sofre, anda triste por nossa causa? Que o Senhor nos ajude a pensar mais na felicidade dos outros do que na nossa.

TERÇO DA VIDA (1 de maio – segunda-feira)

1.º
O nosso primeiro pensamento vai para Jesus, que é a Vida dos homens. Ele próprio afirmou: Eu sou a Vida. Esta é uma pessoa, ou seja, a Vida não é algo que Jesus dá, mas que Ele é. Deste modo, só vivemos se estamos n’Ele, se vivemos unidos, mergulhados n’Ele; caso contrário, vegetamos e não possuímos a Vida. Quantos cristãos, apesar de homens e mulheres batizados, são «cadáveres ambulantes»? Comem, bebem, trabalham, divertem-se, mas porque não estão na graça, não estão unidos a Deus, não possuem a Vida verdadeira. Peçamos por todos esses nossos irmãos, para que, convertendo-se ao Senhor, vivam em Jesus, com Jesus, por Jesus.

2.º
Se a vida da graça, como meditámos no primeiro mistério, é importante, a vida humana também o é. Ser pessoa, ser homem ou mulher, é uma dignidade imensa. A vida humana, só porque é vida, merece todo o nosso respeito, atenção, amor. Daí que se deva fazer tudo para ajudar os outros a viver com dignidade e amor. Daí que tudo o que é ato contra a vida, é um pecado, uma ação grave. Precisamos de apreciar a vida, de amar com alegria a nossa vida e a dos outros. Peçamos ao Senhor que todos os homens respeitem a vida dos outros homens.

3.º
Nossa Senhora, como Mãe de Jesus, é a Mãe da Vida. E como mãe de todos os homens, é Mãe dos viventes. Ela, a Senhora, soube viver com grandeza, com nobreza, com dignidade a sua vida de mulher, de mãe, de dona de casa, de cuidadora, de educadora. Viver, para Maria, era estar sempre centrada em Deus, o autor, o criador, o senhor da Vida. Daí que à Virgem Maria interesse, dum modo particular, a vida de todos os homens e do homem todo. Daí que ela se empenhe para que os homens se amem, se respeitem, estimem a vida de cada um, como dom de Deus.

4.º
Vamos trazer à nossa oração os pecados contra a vida, vamos trazer, recordar, rezar por aqueles que os cometem. E são tantos, no mundo de hoje!!! As guerras, com tanta morte e mutilação; os abortos, aos milhares cada dia, destruindo vidas inocentes e indefesas; os homicídios, sobretudo os praticados por ódio e vandalismo; os suicídios devido à angústia e ao desespero; a droga que vai desumanizando e degradando as pessoas; as torturas, os sequestros, as prisões injustas e degradantes… e bem podíamos continuar com este rosário de males e crimes. Coloquemos tudo no coração de Deus, o Senhor da Vida, e supliquemos perdão e misericórdia.

5.º
Rezar a vida, rezar sobre a vida deve levar-nos a um compromisso sério. Temos de fazer algo para que a vida seja mais respeitada, para tentar diminuir os sofrimentos, para amparar e ajudar os que sofrem, para inventar modos de aliviar o sofrimento dos órfãos, a solidão dos idosos, a dor dos que sentem a sua vida desrespeitada, mas não têm voz nem força para se defenderem. Que podemos e devemos fazer para ajudar a solucionar estas e tantas outras situações? Que Nossa Senhora nos ajude para não ficarmos parados, comodamente instalados, pois é preciso agir.

In PEDROSO, Dário, s.j., Meditando o Terço, Editorial A.O. – Braga (adaptado)